quarta-feira, 18 de outubro de 2017

15 de Outubro de 2017

Não quero saber de tempos, não me importo se sou melhor ou pior que as outras ou se demoro mais  dez minutos ou menos duas horas a fazer o mesmo trajecto do que o resto das pessoas, o que gosto é de conquistar quilómetros, divertir-me e ser feliz, o que gosto é de aproveitar e curtir as descidas e de alcançar os topos que aparecem no meu horizonte. O que gosto é de pedalar. 
Um senhor desmontou no início da subida e quando eu reclamei porque quase me fez descer também da bicicleta respondeu-me que a probabilidade de desmontar era tão grande que mais valia fazê-lo já. Eu só lhe disse que o que gosto mesmo é de contrariar as estatísticas. E subi, montada até ao topo. O que e gosto é de ganhar bocados de chão. 


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Dias tão tristes, estes

O país está a arder, outra vez, tantas vezes. Adormecemos com medo e ansiedade e acordamos com as más notícias, outra vez, tantas vezes. A verdadeira dimensão de tudo isto só saberemos quando todos os fogos forem extintos, as imagens que vemos são horríveis e não podemos deixar de nos emocionar profundamente com os vídeos partilhados. As nossas serras estão a desaparecer, queimadas pelos fogos, as nossas casas, as nossas pessoas, a nossa gente e a nossa essência. 
Ontem trocava mensagens com uma amiga que ficou presa numa estrada, cercada pelo fogo de todos os lados, dizia-me que os mandaram abandonar os carros e descer até ao rio, a última mensagem dela antes de ficar sem rede era que já não conseguiam sair de lá, vivi horas de pânico até ter de novo notícias dela, até ela estar a salvo e me descrever o terror de tudo o que viveu, mas isso sei eu bem, passei pelo mesmo há uns anos atrás. O que mudou desde esse ano em que também eu me vi cercada pelo fogo? Nada. O país está só a arder, outra vez, tantas vezes. Não aprendemos com os erros, não fazemos nada para mudar, não protegemos tudo o que temos de bom e que é nosso, que somos nós.
Não há mais nada a dizer, já tudo foi dito, as palavras não servem de nada, para nada. O que precisamos é de revolta e de atitudes. 
E perante tantas imagens tão terríveis deixo uma de profunda beleza, deixo a da flor da esperança, tirada por alguém muito especial nas nossas montanhas queimadas, a flor que é a primeira a nascer e a mostrar que a vida continua e que é preciso reconstruir e renascer das cinzas. Que sejamos como a flor, que sejamos capazes de crescer no meio da destruição. E que a chuva caia lá fora. Até o país arder, outra vez, tantas vezes.


Do Pedal para o Blog #12

domingo, 15 de outubro de 2017

Os meus livros #30 - O Diário de Mary Berg

Sinopse

Em 1939, no dia do seu décimo quinto aniversário, enquanto as forças nazis começavam a apertar o cerco sobre Varsóvia, Mary Berg começou a escrever este diário. Nesse momento, ela ainda não sabia que, quatro anos depois, teria preenchido 12 cadernos com as suas memórias do terror nazi, recordando com detalhes vívidos alguns dos mais importantes e dramáticos acontecimentos do século XX. Desde o cerco das forças alemãs a Varsóvia até à final, e brutal, supressão da Insurreição do Gueto, Mary Berg documenta a provação dos refugiados, a luta diária pela sobrevivência, os recrutamentos forçados de judeus, as deportações e o heroísmo dos lutadores da Resistência que se ergueram contra a opressão alemã. Libertada através de uma troca com um prisioneiro dos Aliados, Mary Berg levou consigo os cadernos que escrevera durante quatro anos. Ao fazê-lo, deixou-nos um dos documentos mais extraordinários da Segunda Guerra Mundial: publicado originalmente em 1945, este diário dramático e impactante foi o primeiro a revelar a verdade sobre o Holocausto, um dos capítulos mais negros da História contemporânea.

sábado, 14 de outubro de 2017

Reler-me #43

Vivo no mundo das montanhas...

Só quem desafia as montanhas é capaz de lhes ter o respeito que elas merecem. Só quem as percorre com sol, com chuva, com gelo, com neve, com calor, com frio, com humidade, com pó ou com lama tem a capacidade de perceber a sua grandeza. Só quem se sujeita às vontades da natureza percebe que pode ser derrotado a qualquer instante. Só quem vive as montanhas consegue perceber que por lá não somos nada nem ninguém. As montanhas têm a capacidade de nos mostrar que o topo é sempre mais longe do que o que conseguimos imaginar, que o topo pode ser sempre mais difícil, que o topo nunca é ali, porque no fim de uma subida as montanhas conseguem mostrar-nos que há sempre um outro topo a alcançar, que há sempre algo mais, que as subidas têm sempre continuação. As montanhas são poderosas, enquanto as percorremos somos muito pequeninos, quando as vencemos ficamos grandes, enormes, gigantes. Só quem desafia as montanhas é capaz de lhes ter o respeito que elas merecem, só quem as desafia consegue sentir o poder, o orgulho e a felicidade de as conquistar.

Outubro de 2013

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Bike Blog

Em 2015 acabei tão suja como não tinha memória, enfrentei ventos, chuvas, lama e um furação. Cheguei ao fim cansada, com frio, completamente imunda e muito feliz. A melhor parte foram as fotos que esta grande aventura me proporcionou.

Em 2016 segui para a maratona em vez de optar por o trajecto mais curto e mais fácil. A minha condição física não era a melhor. Enfrentei o cansaço, o calor, o pó e as subidas que não esperava. Cheguei ao fim em segundo lugar e subi ao pódio, terminei muito feliz. A melhor parte é que este dia apesar de difícil foi muito importante para mim.


Já vos conto as cenas dos próximos capítulos, que é como quem diz, já escrevo sobre a maratona da beira-mar de 2017. Vou ali e já volto.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Na maratona (e na vida)

Muito mais do que treino e preparação física, para chegar ao fim da maratona é necessário força e capacidade psicológica. A meta fica mais perto e mais fácil de alcançar se partirmos com determinação e acreditarmos que somos capazes de tudo. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Sorri Julieta, é para a Internet

Julieta foi abandonada no monte quando nasceu, ela e mais cinco irmãos, dois gatinhos e três gatinhas, ficaram por lá uns dias até serem encontrados e entretanto ficaram doentes, todos apanharam coriza, para a qual foram medicados assim que chegaram à associação que os acolheu. Julieta tomou um antibiótico com o qual melhorou, mas uns dias depois a doença foi mais forte do que ela e voltou. Julieta tomou mais um antibiótico, ficou melhor, mas com a mudança cá para casa e a separação dos irmãos a doença acabou por vencer mais uma vez. Julieta teve então de ser novamente medicada para a coriza e tanta medicação começou a fazer o corpo dela ceder, mais medicação para os intestinos e entretanto mais medicação para a coriza, porque o corpo dela rejeitou os três tratamentos anteriores e a doença acabou sempre por voltar. Na última consulta a veterinária disse que vamos tentar esta última medicação e ver se o corpo dela, tão pequenino, a consegue aceitar e suportar. Julieta ainda não tem dois meses de vida e neste tão pouco tempo ainda não sabe o que é estar saudável, só avistar a medicação já a faz entrar em pânico, mas apesar disso Julieta está muito feliz, é muito meiga e muito louca e eu... bem... eu estou completamente apaixonada por esta coisinha pequena.

Sorri Julieta, nós as duas sabemos que vai correr tudo bem. 

sábado, 7 de outubro de 2017

Os meus livros #29 - Milagre (R. J. Palacio)



SINOPSE


August nasceu com uma deficiência genética que faz com que o seu rosto seja completamente deformado. Quando nasceu os médicos não tinham esperança de que sobrevivesse, mas sobreviveu. Vários anos e muitas cirurgias depois, August vai, aos 10 anos, enfrentar o maior desfio da sua vida. A escola. Contado a várias vozes, é uma história emotiva das dificuldades que tem de superar uma criança com uma terrível deformação e um relato do milagre que é a vida.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Não me roubem o Outono

Continuo a vestir-me de roupa leve e clara, as janelas continuam abertas e o sol entra radioso pela manhã, durante a noite empurro a roupa da cama que me parece demasiado quente, o calor ainda me queima a pele, no ar ainda cheira a flores e no fim da pista ainda há coelhos pacientemente à espera que eu passe. Podia jurar que estamos no pico da Primavera, não fosse o calendário aberto em cima da mesa. Não me roubem o Outono. O Outono é meu. É meu e tem folhas coloridas pelo chão e árvores despidas. É meu e tem manhãs frescas e noites frias. É meu e tem roupas quentes e botas. É meu e tem dias cinzentos e chuviscos. É meu e tem horas quentes depois de almoço que apetecem aproveitar numa esplanada sem sombras. É meu e tem cheiro a uvas maduras nos campos e a castanhas assadas na cidade. É meu e tem dióspiros com canela. É meu e tem manta e chá quente num sofá de abraços. É meu e tem trilhos com lama para me aventurar. É meu e tem chuva a bater na janela numa manhã de sábado, quando posso virar para o lado, cobrir-me bem e aproveitar para ficar cá dentro. Não me roubem o Outono. O Outono é meu. É meu e tem de ser Outono.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Loira, a inspirada

Abri a página em branco para escrever, mas não fui capaz, aconteceu várias vezes, fiquei aqui a olhar para o ecrã vazio à espera de preencher com bocados meus, não saiu nada, não havia nada para dizer, nada para contar, nada para escrever. Fechei a página em branco e desisti. Fui pedalar. Regressei com uma lista de ideias, coisas para fazer, coisas para viver, coisas para escrever. Tantas coisas para escrever que a primeira coisa que fiz assim que entrei em casa foi apontar tudo, como se a inspiração fosse preciosa, porque é provável que seja mesmo, inspirada sou muito mais feliz. Pedalar inspira-me, mesmo quando a vida não é inspiradora. 

domingo, 1 de outubro de 2017

Reler-me #42

A máquina de fazer ciclistas

Não sei se já viram alguma prova de ciclismo, não sei se acompanham a modalidade ou se entre a mudança de um canal para outro já pararam por algum tempo numa reportagem sobre uma volta, uma maratona de BTT ou uma competição em pista, enfim, sobre esta gente que pedala e de que eu me pergunto sempre de que é feito. Sim, de que é feito um ciclista? Já vi quedas que nem consigo descrever, ou através de um ecrã ou pessoalmente, já vi lesões de dar medo só de olhar, já me doeu a alma só de imaginar semelhante dor e já me doeu também a mim, quando fui eu a sentir no corpo o contacto com o chão. Se viram, se pararam durante cinco minutos para olhar para esta gente, terão com toda a certeza do mundo reparado que esta gente se levanta o mais rápido possível depois de uma queda e só pensa numa coisa, em continuar, em conseguir. Falo sobre isto com conhecimento de causa, falo sobre o que sinto na pele e posso dizer que quando pedalas só te sentes um verdadeiro ciclista quando atinges a tua meta, vás em competição ou em passeio, vás fazer 100 ou 10 km, vás sozinho ou no meio da multidão, a tua meta é a tua maior vitória, é a tua felicidade. Por isso um verdadeiro ciclista só desiste do que quer que seja se não tiver outra hipótese, por isso um verdadeiro ciclista só não se levanta disposto a montar novamente a bicicleta e a continuar se isso for humanamente impossível. Só te sentes um verdadeiro ciclista quando a dor de desistir de um objectivo ultrapassa a dor de continuar, de tentar. Não sei de que é feito um ciclista, não sei qual será a máquina que os prepara para isto, só sei que me sinto uma, e se em cima da bicicleta sou uma verdadeira ciclista, não vai ser na vida que vou ser uma jogadora de futebol. 

Agosto de 2015

sábado, 30 de setembro de 2017

Os meus livros #28 - Maria dos Canos Serrados (Ricardo Adolfo)

 


Sinopse


Maria dos Canos Serrados é a história de uma moça de má rês que se torna pior ainda. Arredores de Lisboa. Maria, vinte e muitos, adora a igualdade de liberdades, o seu namorado gigolô, as noites intoxicadas com as amigas e a ideia de vir a ser directora. Mas, de um dia para o outro, vê-se desamada, despedida e falida. E, entre resignar-se ou virar a mesa, Maria decide acertar contas de arma em punho. Contada de rajada na primeira pessoa, Maria dos Canos Serrados é uma história desbocada, nascida da Grande Crise. Uma reflexão sobre a nova mulher, que não precisa de um Clyde para ser Bonnie.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Isto só pode ser castigo divino

Tanto eu dizia que queria uma gata que me desse mimo em vez de me foder os sofás que acabou por me sair a gata mais mimalha do mundo. Eu a pensar que a tinha adoptado, afinal quem me adoptou foi ela. Entrou cá em casa e desde o primeiro minuto nunca mais me largou, persegue-me para todo o lado, não me larga os pés nem o colo, chora para pedir atenção e sempre que saio de casa faz um drama tão grande que mais parece que vai ficar sozinha para sempre, cobra-me sempre que regresso, num misto de alegria por me ter de volta com tristeza por ter a coragem de a deixar sozinha. Agora já vai comendo na minha ausência, mas nos primeiros dias nem disso era capaz. Desde que chegou nunca mais consegui ficar sozinha, nem na cozinha, nem na sala, nem na casa de banho, nem no quarto, anda colada a mim e até mesmo quando ligo aquele terrível monstro chamado aspirador só a consigo afastar uns metros, já que a esta altura do campeonato aquele outro monstro chamado secador de cabelo já não resulta para a afastar nem um milímetro. O melhor local do mundo, aparentemente situa-se entre a minha cara, o meu pescoço e o meu avantajado decote, já que retirá-la desse perímetro é uma obra muito dura. À noite dorme onde muito bem lhe apetece, tanto pode ser em cima das minhas costas como da minha cabeça, e de manhã acorda-me todos os dias a dançar o samba na minha cara. Estamos em tanta sintonia que, percebi recentemente, até o meu estado de espírito ela adopta para ela, se eu estou feliz ela também está, se eu estou triste ela fica solidária comigo. Pedi tanto uma gata mimalha que me saiu um carrapato para me fazer apaixonar, porque isto gente, isto são 600 gramas de amor.