sábado, 26 de maio de 2018

Os meus livros #30 - Se o passado não tivesse asas (Pepetela)


Sinopse 

Himba, treze anos acabados de fazer, perde-se do resto da família, vendo--se de repente sozinha no mundo. Sem outros meios que não sejam a sua inteligência, consegue chegar a Lunda, onde conhece Kassule, um menino de dez anos que perdeu uma perna devido a estilhaços de uma mina. Ambos órfãos vítimas da guerra, dependendo do lixo dos restaurantes, unem-se para conseguirem subsistir, lutando pela sobrevivência dia a dia. Sofia, que há muito aguarda uma oportunidade para mudar de vida, aceita gerir um restaurante, onde também dá conselhos sobre temperos. À medida que o restaurante vai ganhando clientes da classe alta de Luanda, também a ambição de Sofia vai sendo alimentada. E está disposta a agarrar todas as oportunidades que lhe garantam uma vida melhor, a ela e ao irmão Diego, um artista de rua que sonha expor em galerias. Se o Passado não Tivesse Asas cruza duas histórias, duas grandes personagens femininas, numa narrativa original com um desfecho imprevisível, que retrata os últimos vinte anos da história de Angola. 




Se o passado não tivesse asas foi uma boa companhia durante uns dias, prendendo-me mais às personagens do passado do que às do presente/futuro, mas ainda assim não há como não tirar conclusões dramáticas sobre a evolução das personalidades. A dada altura só conseguia dizer que este livro era lindo, porque eram lindos Himba e Kassule na minha cabeça.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Tenho histórias para contar

Começo por dizer que tenho um grande arranhão no pescoço, daqueles horríveis que faz parecer que pouco faltou para eu ser decapitada. Exibo por estes dias um belo decote, como podem imaginar. Posso então contar duas histórias sobre isto, a história com a honra e glória que sempre tive para contar, afinal sou uma miúda todo o terreno, tenho marcas de sol na pele dos quilómetros com os pés encaixados nos pedais, faço lesões em actividades radicais, mostro nódoas negras ou ferimentos feitos orgulhosamente a descer trilhos técnicos, exponho com elegância os arranhões que o mato me faz, lá em cima nas montanhas.
Se isto fosse a história com honra e glória a que todos já se habituaram eu estava a descer a montanha por um single track com um grau de inclinação brutal, técnico, cheio de pedras e de paus e de valas, de um lado havia mato bravo e do outro um precipício, foi então que um ramo de mato se prendeu ao meu pescoço e quase me degolou, continuei a descer e só lá em baixo, no fim do trilho é que percebi a gravidade dos ferimentos, pedalando ainda assim, com este profundo golpe os mais de cem quilómetros que me faltavam até chegar a casa.
A verdade é que acordei esta manhã e dirigi-me à casa de banho como sempre, sentei-me na sanita e Maria Alice, a gata preta, veio atrás de mim como sempre, subiu para o autoclismo como sempre, mas hoje de manhã eu tinha mais sono do que nos outros dias todos e não expulsei de lá Maria Alice, a gata preta, atempadamente e Maria Alice, a gata preta, também tinha mais sono do que nos outros dias todos, por isso mesmo deixou-se escorregar, caiu e veio parar com as garras directamente ao meu pescoço.
Tenho histórias para contar, sempre tive, houve uma altura da minha vida em que todas as minhas histórias eram de honra e glória, agora sou imprevisível e as minhas marcas de pele tanto podem ter acontecido de forma radical como pela manhã, ao acordar, sentada na sanita.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

4 dias

- bicicleta, sapatos de encaixe, capacete, óculos, luvas, bidão

- material de reparação de avarias

- toalha de banho ultra leve, ultra fina, ultra pequena

- protector solar

- gel de banho, champô, escova de dentes, pasta de dentes e escova de cabelo, tudo em miniatura

- amostras de alguns cremes e batom do cieiro

- alguns medicamentos, joelheira

- cadeado,tripla

- pijama

- telemóvel, relógio gps, respectivos carregadores, powerbank

- uma coisa muito minha para deixar no destino

- dinheiro, cartão de cidadão, cartões multibanco, cartão Europeu de seguro de doença, chaves de casa para o regresso

- lenços de papel, toalhitas, pequeno bloco de notas e uma caneta

- 1 camisola térmica, manguitos

- 1 impermeável + 1 colete

- 2 conjuntos de ciclismo (calção, jersey, meias, top)

- chinelos

- 1 muda de roupa que eu chamo de gala porque servirá para todos os dias à noite + calçado

- alimentação

- caderneta de peregrino

sábado, 19 de maio de 2018

Os meus livros #29 - O Violoncelo de Sarajevo (Steven Galloway)


Sinopse

O Violoncelo de Sarajevo é um relato ficcionado do cerco feito a Sarajevo entre Abril de 1992 e Fevereiro de 1996. Apoiado em factos reais, dá a conhecer o intenso drama vivido pela população de Sarajevo, onde foram mortas mais de dez mil pessoas e feridas mais de cinquenta e seis milhares. Por detrás da sua janela, um violoncelista não podia prever o que iria acontecer: 22 pessoas mortas à sua frente num tiroteio enquanto esperavam na fila para a ração de pão. Em sua homenagem o violoncelista toca sentado no meio da rua o Adágio de Albinoni durante 22 dias seguidos e sempre à mesma hora. Surge no entanto a notícia de que há um plano para assassinar o músico em plena actuação, quando faltam apenas dois dias para que complete as 22 sessões. NOTA: Um compositor inglês, David Wilde, sensibilizado pela história compôs uma música chamada "O Violoncelo de Sarajevo", que mais tarde foi interpretada por Yo Yo Ma, célebre violoncelista norte-americano de origem chinesa, no Festival Internacional de Violoncelo em Manchester. 




Uma releitura muito especial, além de adorar este livro a Su levou-o para o seu Caminho muito especial e usou-o como um diário, tenho neste livros os seus pensamentos, os seus carimbos e as suas recordações. É um livro nosso este.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O lixo de uns é a riqueza de outros

 Julieta nasceu na rua, a mãe foi abandonada e a Julieta e os irmãos nasceram e viveram os primeiros dias de vida na rua, depois foi recolhida pela associação dos gatos de rua e viveu numa família de acolhimento até eu a escolher para ser minha. Chegou doente e assim viveu durante os primeiros meses de vida, sempre a tomar medicação atrás de medicação. Vive comigo há oito meses. Está gorda, é meiga, traz-me o rato quando o atiro, insiste em dormir em cima do meu peito apesar de pesar quase 5 quilos e de quase me sufocar, amua, exige mimo, faz asneiras, mas sempre incentivada pela Alice, olha-me com amor e tem o focinho mais bonito e mais expressivo do mundo, cuida de mim e da Alice e faz o olhar mais triste do mundo quando percebe que eu vou sair de casa.
Sobre o nascimento da Alice não sei nada, chegou-me a casa a chorar, completamente independente e selvagem mas depressa se habituou ao carinho e ao mimo apesar de durante os primeiros tempos se notar muito os traumas dela, tentei devolver a Alice a quem de direito, mas foi-me impossível e por isso tomei a decisão de ficar com ela, já que ela me escolheu, continua a reclamar do colo para depois pedir colo a seguir, ronrona horas seguidas, tão alto que me consegue acordar, costumo dizer que a preta tem o motor da felicidade avariado, continua independente, mas pede mais mimo que a Julieta e retribui, dá tanto mimo que é impossível não lhe perdoar as asneiras que faz, comunica, mete-se em todos os buracos que vê e para ela o melhor lugar do mundo é acolhida num quentinho. Está comigo há cinco meses, reclama como ninguém e leva-me sempre à porta a hora da saída, está no mesmo sítio quando chego, à minha espera, quando saio à noite não vai para o quarto sem mim, espera-me na sala e quando percebe que já cheguei aí sim, vai para a cama dormir.

 

Poderia falar ou escrever sobre elas durante horas, sei perfeitamente que é um lugar comum, mas para mim é tudo novo e eu, quando escolhi a Julieta e quando deixei que a Alice me escolhesse, nunca imaginei sentir um amor tão grande por elas, nunca imaginei que isso fosse possível. Nunca imaginei que estas duas pestes fossem das melhores coisas que trouxe para a minha vida e que me fizessem tão feliz. O lixo de uns é a riqueza de outros. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

As flores da minha infância

A montanha estava coberta de flores, enquanto subia já tinha perdido os meus pensamentos nelas, já me tinha sentido feliz só por poder estar ali, por ver aquele espectáculo da natureza, tão perto de nós mas só acessível a alguns. Ao meu lado comentaram sobre elas e eu recordei-me miúda, a passar de carro com o meu pai numa estrada no meio do nada e a obrigá-lo a parar para ir buscar daquelas mesmas flores, a entrar feliz, com um ramo enorme e lindo, que me oferecia pequenos bichinhos e alguns espirros e comichões, mas que eu levava religiosamente para casa, de sorriso no rosto.
Não sei quando deixei de apanhar flores, ao recordar-me miúda vejo-me a fazê-lo vezes sem conta, agora não gosto delas em jarras nem em ramos, prefiro-as no seu território natural, prefiro-as na terra, na natureza, nos jardins, nas montanhas, prefiro visitá-las a trazê-las comigo. As flores da minha infância ensinaram-me muito, mas o mais importante foi a saber respeitá-las.

domingo, 13 de maio de 2018

Os meus livros #28 - A Partir de Uma História Verdadeira (Delphine de Vigan)

Sinopse

A história é contada na primeira pessoa, com Delphine, a narradora, como uma das duas personagens. Todos os nomes são de pessoas reais: o da autora/narradora, o dos filhos, do namorado… A história é aparentemente autobiográfica e, no entanto, torna-se a certa altura um jogo de espelhos, em que é difícil discernir entre realidade e ficção. Nada previsível, cheio de surpresas, com um suspense crescente (chega a ser atemorizante), mantém o leitor literalmente agarrado até ao fim. Delphine crê que a sua incapacidade de escrever terá coincidido com a entrada de L. na sua vida. L. é a mulher perfeita que Delphine gostaria de ser: muito bonita, impecavelmente cuidada, de uma grande sofisticação e inteligência. L. está também ligada à escrita - é escritora-fantasma. L. insinua-se lenta mas inexoravelmente na vida de Delphine: lê-lhe os pensamentos, adivinha-lhe os desejos e necessidades, termina-lhe as frases, torna-se totalmente indispensável - é a amiga ideal. Mas, aos poucos, sabemos que ela conseguiu isolar Delphine (afastando toda a gente), que lhe lê os diários, a correspondência, que se faz passar por ela! E quer demover Delphine de escrever o livro que esta está a preparar, obrigando-a a escrever a obra que ela (L.) quer: Introduz-se, assim, na vida da amiga de forma insidiosa, permanente, por fim violenta, controlando tudo. É aqui que há um volte-face na intriga - até aí muito perto do real - e uma possibilidade autobiográfica. O fim é maravilhosamente surpreendente. O seu livro anterior, Rien ne s’oppose à la nuit, em que conta a história da mãe, vendeu cerca de um milhão de exemplares em França e teve vendas na casa das dezenas de milhares em Espanha.




A Partir de Uma História Verdadeira passa directamente para o topo dos melhores de 2018, este livro é todo ele uma espécie de jogo psicológico em que o leitor tem de interpretar cada palavra de uma forma minuciosa. Mas o melhor está guardado para o fim, sobre o qual não posso dizer absolutamente nada. Se por acaso estão a ler isto e já leram este livro contem-me tudo, por favor, se não leram e vão ler, assim que terminarem, contem-me tudo também, eu agradeço.

sábado, 12 de maio de 2018

Os meus livros #27 - O Engenho (Reinaldo Arenas)




Sinopse



Reinaldo Arenas (1943-1990), poeta e romancista perseguido e torturado pelo regime de Fidel Castro, exilou-se nos Estados Unido na década de 80. Fazendo um paralelo com a época dos Descobrimentos e da escravatura, traça aqui a história de milhares de cubanos recrutados à força nos anos 70 para trabalhar nas plantações de cana-do-açúcar em condições miseráveis.









Não há muito mais a dizer do que a Sinopse deste livro já nos diz, uma descrição da dor. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

terça-feira, 8 de maio de 2018

Palmier, querida



E já prometi a mim mesma milhões de vezes que não comprava mais livros enquanto não lesse pelo menos metade dos que tenho para ler a seguir. Mas o lote dos para ler a seguir nunca deixa de crescer, a lista dos para comprar a seguir é interminável, a lista dos urgentes nunca me sai da cabeça, a lista dos que vou ter emprestados também é extensa, não resisto a uma promoção e nem a comprar livros usados, além de que a cada livro que leio há mais dez que quero ler. Penso que sofro de uma doença incurável, e agora, se me dão licença, deve estar a chegar o carteiro, com a encomenda que fiz ontem. 

O que não te desafia não te transforma

Nunca acho que seja demais para mim, atiro-me sempre aos desafios sem pensar nas possíveis consequências, quero sempre mais, quero sempre ir mais longe, quero sempre subir mais um topo, quero sempre ir à montanha mais alta, quero sempre fazer mais acumulado de subida, e de descida, quero sempre fazer mais quilómetros, quero sempre conhecer novos locais. Nunca me chega, quero sempre mais, nunca acho que seja demais para mim. O que não te desafia não te transforma, quero sempre mais desafios. Eu sou o meu maior desafio.

domingo, 6 de maio de 2018

Os meus livros #26 - A Delicadeza (David Foenkinos)



Sinopse


Nathalie e François podiam ser personagens de um conto de fadas. Mas um dia o destino desfere um duro golpe, quando François é atropelado e morre pouco depois. Para Nathalie, a dor é insuportável e parece prolongar-se eternamente. Até que, num momento irrefletido, Nathalie surpreende Markus, um colega de trabalho, com um longo e intenso beijo…

O que David Foenkinos nos oferece neste romance, que explora o lado mais lúdico da ficção, é uma análise séria, inteligente e bem-humorada do comportamento amoroso, capaz de nos fazer apaixonar pelos dois protagonistas e de nos envolver profundamente no seu drama humano. Combinando o drama e a esperança, A Delicadeza é um romance que nos desperta os sentidos.




Como disse anteriormente apaixonei-me por David Foenkinos na primeira página que li dele, chegou a altura de o reler, depois de As Recordações peguei em A Delicadeza e cada vez me apaixono mais por esta forma de escrita.